Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 0 comentários
Todos que lêem meu blog sabem que pra mim o IC é indispensável e que ouvir pra mim, é tudo. Até mesmo o som mais irritante do mundo, acaba se tornando música…é só depois de implantada e ter redescoberto tantos sons que eu posso entender a frase “Todo som é música” usada pelo pessoal do Fórum do Implante Coclear.
Mas claro, que nem tudo são flores e nem tudo é perfeito. O meu implamte tem garantia de 3 anos para processador e antena (acabei de cofirmar por email isso) e os fios, bateria DACAPO e outros componentes, tem garantia de 3 meses. Acontece, que eu tenho cabelo comprido, passo o dia todo com o IC por baixo das madeixas e quando vou tirar, tem kilos de cabelo enroscado no fio. Por mais que eu tome cuidado, acabo mexendo mais do que deveria no fio, conclusão? Quebrou, ainda bem que vem com um reserva, mas também preciso de outro pra deixar reservado, então aproveitei que estava em São Paulo e fui na Phonak/MED-EL para encomendar um.
GENTE quando ela me falou o valor daquela bostinha, eu quase cai pra trás, 247 reais, ai ela disse “Mas associados da ADAP tem desconto, então vamos checar com a ADAP e se você estiver registrada, vai sair uns 195 reais.” Ok ela encomendou, vai chegar na sexta-feira. Me peguei pensando que o valor de um cabo da Cochlear deve ser o dobro, porque os implantes da Cochlear é tudo mais caro.
Fui então entrar em contato com a Phonak e perguntar sobre garantia estendida e seguro (caso de roubos, pq isso a ADAP deixa claro no contrato que não cobre), por hora a única informação recebida é de que a garantia estendida fica por conta da ADAP mesmo, mas ela ainda não me respondeu sobre o seguro. Se não tiver, fodeu, porque o valor da parte externa sozinha é de 30 mil reais, precisaria cuspir dinheiro pra isso. É o valor de um carro.
Fico aqui pensando, eu tenho sorte de ter uma família que pode bancar, porque sinceramente, se precisar pagar a parte externa em caso de furto, o pessoal aqui se vira nos 30 pra pagar, junta a família toda e paga, mas e pessoas que não tem condições? Quebra um cabo, a vida útil das baterias recarregáveis termina, o compartimento de pilha quebra, o implante é furtado ou perdido, como essas pessoas vão bancar isso se não tiver condições de pagar um seguro, uma garantia estendida, entre outras coisas?
Infelizmente, por mais maravilhoso que seja o IC, ainda não acredito que seja uma tecnologia acessível a todos os surdos de todas as classes sociais. Infelizmente, se você não tiver um pouquinho de grana no bolso, é melhor nem arriscar. Sintam-se livres para discordar, mas é triste que uma tecnologia tão maravilhosa, não possa ser financeiramente acessível para todos.
Beijos a todos
Ps: Só pra deixar avisado, como muita gente me pergunta e tem duvidas sobre como eu fiz pra aprender inglês sendo surda, meu proximo post será sobre isso.
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 35 comentários
Pessoal, o Blog Igualmente Diferentes completará 3 anos dia 16/02 e eu decidi fazer um sorteio. O ganhador leva pra casa um despertador vibratório, que é sem fio e pode ser colocado embaixo do travesseiro ou usado no braço enquanto dorme (se você do tipo que se mexe muito).
Esse é o despertador:
O sorteio será dia 16 de março (por conta do Carnaval vou dar um mês para participação dos leitores), e será feito por um SITE, ou seja, sem favoritismos, sem sacanagem. Todos podem participar.
Pra quem quiser participar, basta comentar com o seu nome completo e e-mail (pra entrar em contato depois) e responder a pergunta “Qual blog premia você com um despertador Shake’n Wake?” (porque propaganda é sempre válida).
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 3 comentários
Férias, aquela época do ano em que muita gente aproveita pra relaxar, pegar um avião tranquilamente e ir pra algum lugar. O que é simples pra uns, às vezes torna-se um pesadelo na vida de nós, surdos e deficientes auditivos.
Essa semana eu havia marcado viagem pros EUA, mas como fui por tarifa mais baixa, peguei passagem na LAN Aerolineas. A viagem foi marcada pra ontem, domingo dia 22 de janeiro, mas como acabei tendo cólica renal e me proibiram de viajar, porque estou com uma pedra no rim e outra obstruindo o ureter o que faz minha pressão despencar, precisei cancelar a passagem.
Bom, primeiro que foi impossível cancelar online, eles não tem serviço de chat online, me restou pedir ao meu tio vir aqui e ligar no call center, porque minha tia é meio lerda. O call center não funciona de domingo, só de segunda à sexta, o que sobrou? Ligar diretamente no guichê no aeroporto pra cancelar, só isso levou 1:30 h pra dar certo.
Custava uma companhia aérea de grande porte que tem parceria com mais duas, colocar um serviço de atendimento online por chat?
Outra coisa que me aconteceu nessas férias, foi uma entrevista de emprego via skype, eu já tinha dito que era surda e pediram pra comparecer mesmo assim, fui confiante, porque aprendi inglês com leitura labial, mas cheguei lá, SURPRESA, a coisa era via skype. Expliquei pra ela, me virei bem, ela só precisou digitar UMA coisa, e modéstia a parte, falo inglês muitíssimo bem, mas obvio que não teve retorno.
Agora me digam, e se essa moda pega? Como nós, surdos oralizados faremos? Vamos continuar na briga ai pessoal, porque tá dificil…
Beijos a todos
PS: Nas férias fico sem muita coisa pra contar, por isso ando sumida, mas não abandonei não.
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 2 comentários
Pensando em atitudes alheias que magoam uma pessoa que tem deficiência auditiva, várias me ocorreram. Porém, como tudo na vida, dói mais quando vem das pessoas que gostamos. Não é verdade? Quando um estranho tem uma atitude dessas, a gente nem dá bola, afinal, não vale o gasto de energia. Mas quando alguém próximo nos magoa (mesmo sem intenção), chega a parecer traição. E das graves.
Duas coisas me tiram do sério – por 5 minutos, mas tiram. Primeiro, quero estrangular a pessoa, depois, esqueço. Mas meu sangue ferve, porque sou humana, né?
PRIMEIRA: Quando alguém que você adora (pode ser mãe, irmão, amigo, namorado, filho, marido, etc) age como um idiota completo que nada sabe sobre surdez apesar dos longos anos de convivência com você e solta a maldita frase:
- Mas você não está de aparelho???
Aaaargh!! Pra completar, só se a pessoa em questão dá aquela olhadinha para as suas orelhas pra confirmar a suspeita. Meu Deus!! Me considero uma pessoa sensata e calma na medida do possível mas, quando isso acontece, minha reação primitiva é a de querer tirar meus AASI e fazer a pessoa engolir. E a triste verdade é que isso acontece MUITO. Acho que a gente se acostuma a a abafar o caso e não surtar quando se trata de familiares e pessoas próximas. Com eles, temos 1.000x mais paciência do que com estranhos. O trágico é que eles deveriam ter 1.000x mais paciência e respeito conosco do que efetivamente têm.
SEGUNDA: Quando estou numa conversa com alguém próximo ou, outra opção, quando estou distraída e a pessoa fala algo que não entendo. A questão é não entender o que foi dito. Aí, a(o) bendita(o) solta a pérola:
- Deixa. Esquece. Não é nada. Não importa.
Jesus!! A reação primitiva é sentir vontade de pegar o interlocutor pelos cabelos como faziam na Idade da Pedra e arrastá-lo pelo chão dizendo “importa siiiiiiiiiimmmm!”.
Do fundo do coração, não acho que eles façam isso de propósito, com a intenção de nos deixar mal, de magoar, de ferir. Mas é tremendamente irritante a desatenção de quem mais convive conosco para coisas básicas. De quantos anos a família, os amigos, os colegas, etc precisam pra entender de uma vez por todas que estar de aparelho auditivo não é garantia de que vamos entender tudo o que é dito e que é horrível quando não entendemos e eles não querem repetir??
E vocês? Que tipo de atitude das pessoas próximas os magoa pra valer??
Até aqui o Texto foi escrito pela Paula e o texto original pode ser encontrado no Crônicas da Surdez. Mas já que a ultima frase dela foi uma pergunta, vou aproveitar pra acrescentar o que me magoa ou deixa brava.
- Falar quando obviamente estou sem o IC
Eu acabo de sair do banho, com o cabelo pingando, e alguém vem falar comigo, e depois ficam extremamente bravos porque eu estava sem o IC e não entendi, porque ao invés de virem e falarem comigo frente a frente, ou falam de costas ou falam quando não estou olhando. Já cansei de discutir aqui em casa e falar que o IC não funciona Wi-FI como a internet, que o processador precisa estar na minha cabeça pra funcionar, que ele não é a prova d’água o que me obriga a tirá-lo pra tomar banho, e que quando eu acordo – embora às vezes durma com ele – eu não o coloco imediatamente, porque meu mau humor precisa de uma meia hora pra ficar bom e ai sim posso ligar.
- Achar que sei técnicas Ninja de leitura labial
Eu leio lábios muitissimo bem, mas dai achar que consigo entender TUDO que TODO MUNDO fala, em qualquer velocidade, articulação, tipos diferentes de lábios, com barbas e bigodes e outros obstáculos, é demais pra minha cabeça. Não eu não sei nenhuma técnica ninja de leitura labial, sou humana, erro, não entendo, muitas palavras a articulação é parecida, fora outros fatores, então não fiquem achando que tenho obrigação de entender tudo.
- Todo mundo falando ao mesmo tempo
DE NOVO não, eu não tenho técnicas ninja de leitura labial e MUITO MENOS consigo ler os lábios de 3/4 ou mais pessoas ao mesmo tempo – pra quem usa LIBRAS e diz que seria vantagem a LIBRAS em cima disso, se poupe do trabalho, eu tenho dois olhos e não da pra ficar um em cada direção, então mesmo LIBRAS não me salvaria – então me dá nos nervos quando estou falando com alguém e mais dez pessoas falando junto e depois todo mundo reclama que eu não prestei atenção, me sobe o sangue pra cabeça.
- Sair andando pelo cômodo enquanto fala comigo
Não tem coisa que me tira mais do sério do que a pessoa estar conversando comigo e sair andando pelo cômodo em que estamos, ou sair andando pela casa mesmo, pior ainda se estivermos na cozinha e além de sair andando aindar vai lavar louça pra fazer mais barulho e me atrapalhar mais.
- O pior de tudo
Não importa o que aconteça, quem sabe que você usa IC ou AASI e escuta relativamente bem com eles, ou até muito bem, SEMPRE fará questão de retornar a um tópico anterior citado pela Paula e dizer “você tá sem aparelho?” ao que respondo “não ele tá aqui” e dizem “então não tá ouvindo por que? Não tá funcionando direito?”….eu geralmente fico quieta e balanço a cabeça só….mas SIM tá funcionando, mas eu fiquei SETE ANOS sem ouvir, não é rápido assim que vou entender TODAS as palavras que sairem falando pra mim, especialmente porque o pessoal aqui em casa fala rápido demais, embolado demais e dependendo da pessoa, adora falar errado propositalmente, e acham que tenho obrigação de entender. Tem hora que parece que o cidadão está de BRINCADEIRA com a minha cara.
Essas são as coisas que me deixam extremamente frustrada. Agora, faço a mesma pergunta que a Paula, o que mais magoa/irrita vocês?
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 3 comentários
Bom, muita gente tem notado que de uns tempos pra cá eu tenho postado vídeos, fotos e estado meio obcecada por um grupo musical de Coreanas. “Ah não, mas até aqui no blog você vai falar delas?” sim, vou, porque quero explicar o motivo da minha obsessão.
Desde que fiz o implante e melhorei a minha audição, eu ouvia as mesmas musicas, bandas e tudo mais de sempre. Foi quando descobri Girl’s Generation, dia 18 de Outubro pra ser mais exata. Foi uma amiga que me mandou. De primeira pensei “menina bonitas que parecem todas iguais”, continuei assistindo, e conforme e música começou e foi passando, tive mais um momento “é isso”, percebi que as vozes delas são bem claras, e que o idioma coreano é bem carregado de fonemas que eu tenho dificuldade em ouvir, então pensei “serão minhas terapeutas.”
Primeiro percebi que cada membro do grupo, tem uma voz bem diferente da outra e bem fácil de diferenciar enquanto cantam. Depois vendo as letras, percebi que o idioma é carregado de fonemas m//l//n//g//j//b//t//b//k que são os que mais tenho dificuldade pra entender.
O que decidi fazer? Passar hora e horas ouvindo os vídeos e musicas sem letra, e com a letra na mão pra depois ver se tinha acertado. Obvio que não sabia a palavra, mas o exemplo, no começo da musica “The Boys” que diz “Keobi naseo hijakjocha anhae bwahtdamyeon Geudaen tudeoldaeji mara jom,” eu ficava prestando atenção pra ver se eu ouvia como p ou b, como n ou m, como j ou g. Embor não saiba as palavras, o som é forte e bem fácil de ouvir. Então fico aqui com um papel do lado ouvindo as musicas e anotando os fonemas que eu ouço, depois comparo com a letra e vejo o que acertei ou errei.
O mesmo faço com os vídeos de entrevistas e reality shows, a maioria tem legendas em inglês ou algo do tipo, então presto atenção, comparo, checo, traduzo, pergunto. E acreditem ou não, tem me ajudado muito. Há também, o fato de elas terem vozes bem diferentes umas das outras, e elas não são 1, 2, 3 ou 5 como eram as Spice Girls, elas são 9. Na internet as letras geralmente tem escrito, na frente quem é que está cantando qual pedaço da música, ou nos vídeos da pra ver, então ouço com atenção as musicas, ou deixo os vídeos passando sem assistir, e fico com o papel ali anotando os nomes quando ouço os solos. Depois vou conferir.
Tem sido um ótimo treino auditivo e tenho notado uma melhora depois disso, uma grande melhora pra ser honesta. É que nesse processo, acabei notando que elas não agem como “super stars,” elas agem como seres humanos. Garotas com seus 20/22 anos, sendo elas mesmas, brincando, fazendo piadas, cometendo gafes, falando besteira sem pensar. Não agem como se estivessem no topo do mundo. Elas são pé no chão, e muito simpáticas, então acabei me apaixonando rs.
De resto, fico usando os vídeos e as musicas pra treinar, ouvir, tentar perceber, tem dado certo. Foi uma maneira alternativa e divertida que descobri de treinar a minha audição. E eu recomendo esse tipo de treinamento, descobrir um idioma que use bastante fonemas que se tem dificuldade e ficar ouvindo, pra depois ver se acertou ou não. Alemão, russo, chinês, japonês, coreano, inglês, francês, italiano e até mesmo o português com seus NH e LH, por que não? Espero que agora parem de dizer que estou possuída e preciso ser exorcizada kkkkkkk.
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 0 comentários
Pois é “galere”, hoje completo um ano de ativada. Um ano de muitos sons, muitas emoções (boas e ruins rs), mas o principal, um ano de muito sucesso.
Eu tive uma sorte danada, porque sei que nem todo implantado tem os resultados que eu tive, nem se adaptam tão rápido e param a fonoterapia com menos de um ano.
Claro que isso teve muito a ver com minha força de vontade, porque eu treino muito a audição em casa com vídeos no youtube e músicas e com a minhateimosia, porque acabo de sair do mapeamento e já coloco no 4º programa e aumento o volume o máximo que puder, demora uns dias pra acostumar com a barulheira, mas depois de uns 2 meses parece até que está baixo.
Agradeço todos os dias por ter tido a oportunidade de receber esse implante, e agradeço sempre a competência do pessoal do HC.
O segundo implante, vai sair SIM (porque já falei tanto disso que todo mundo deve estar curioso), mas estou com outras prioridades no momento, então estou esperando sobrar um tempinho livre pra resolver isso. Mas acredito que até o fim do ano que vem dê certo.
Bom, agora aproveitando o post….não se esqueçam que sábado dia 26, é o encontro de fim de Ano do FIC em São Paulo, quem já pagou, está com o nome na lista e vaga garantida. Quem chegar na hora, sem nome na lista nem nada, SE tiver espaço, paga 40 reais na porta.
Não se esqueçam que será no Espaço Zumba, no endereço Av. 11 de Junho, 1290, Vila Mariana / Moema., das 12 às 17 horas. Apenas cerveja terá que ser pago a parte.
Espero ver todo mundo por lá.
Beijos a todos
Ps: Pessoal, meu template está meio zuado, o programador está tendo problemas com a internet dele então ainda não arrumou, mas assim que der ele vai arrumar aqui, por causa desse problema outros clientes dele ficaram meio na mão também, então talvez demore. Mas é só ter paciência rs.
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 0 comentários
Pessoal em 2000 foi lançado um documentário (filmado em 1999), chamado Som e Fúria, que relatava parte da vida da família Artinian. O casal Peter e Nita Artinian são surdos e todos seus filhos também são surds. A mais velha, Heather Artinian, diz que gostaria de fazer implante coclear. No vídeo ela diz que gostaria dele porque gostaria de ouvir um acidente de carro, televisão, pessoas falando, alarmes, buzinas entre outros.
A família após muito pesquisar, e conhecer algumas famílias com crianças implantadas, optam por não implatarem a sua filha. O que aconteceu, foi que os pais de Heather, conheceram uma família de ouvintes com filha surda, a menina, ainda muito pequena, tinha implante coclear e não sabia língua de sinais. Nem ao menos sabia o que era língua de sinais, e Nita, mãe de Heather, se sentiu ultrajada por isso, dando inicio a uma briga homérica na família por causa disso. Pois os avós de Heather eram a favor do implante.
Nesse meio, há também o irmão de Peter, que tem um filho surdo e opta por implantar o filho, todos da comunidade surda acham um absurdo, criticam, falam mal, dizem “viva a cultura surda” ou “a cultura surda existirá para sempre”. O bebê é implantado e mais tarde ativado e percebe-se a emoção dos pais no vídeo. O documentário termina e Heather então com 5 anos, não é implantada. Segue abaixo um pedaço do primeiro documentário com legenda.
Então, 6 anos depois o diretor procura a família novamente, e faz Som e Fúria – 6 Anos Depois. Mostra Heather, então com 12 anos Implantada. Os pais decidiram que ela faria o implante quando ela estava com 9 anos. Aos 12, Heather já ouvia e falava muito bem. Qual não foi a surpresa, quando vi que todos os irmãos e primos surdos de Heather também estavam implantados, e quase entrei em choque, quando vi que a mãe dela, que estava totalmente contra o IC e ultrajada por outra criança não conhecer a cultura surda, também havia se submetido ao implante.
Heather é uma menina muito falante, com vários amigos, frequenta escola comum, aonde ela era a única aluna surda, participa de esportes, faz tudo normalmente e com um sorriso nos lábios. É também possível ver a felicidade dela por conseguir falar e ouvir. Percebe-se que é algo que a faz muito feliz. Ela faz aulas de italiano na escola, e para eventuais problemas, tem uma interprete a disposição. Abaixo segue o segundo documentário completo, mas dividido em 3 partes. Infelizmente as poucas legendas que tem são em inglês, quem souber LIBRAS vai entender algumas coisas também, porque ASL é de certo modo parecido.
Agora mais 6 anos depois, me passaram o link de uma entrevista atual com Heather, que está atualmente com 18 anos. Segue abaixo a entrevista
Heather Atualmente
Agora que você tem o seu Implante Coclear por 9 anos, como você se sente o tendo hoje, como adulta?
Uau, eu nunca pensei nisso. Eu acabei de completar 18 anos. Acho que agora sou adulta. Eu acho que me sinto um pouco nervosa, porque vou embora para ir à faculdade, e lá todos os alunos são ouvintes. Estou feliz que tenho o IC comigo, porque definitivamente vai me ajudar a me entender com o mundo. Estou também nervosa qye as pessoas não vão me entender ou eu não as entenderei em situações que serão agora de grande importância (como adulta)
Se você estava no colegial, em uma escola aonde os estudantes eram ouvintes, porque você se sente mais nervosa indo para a faculdade?
Os alunos no colegial estava comigo desde os 13 anos, eles sabem que sou surda e eles sabem que as vezes cometerei erros ou os interpretarei de maneira errada. Eles aprenderam a aceitar isso. Já na faculdade, eu ainda tenho medo que eles não entenderão o fato de eu ser surda.
Como o Implante Coclear fez diferença na sua vida até agora?
Definitivamente mudou tudo. Eu fui de estar exclusivamente na cultura surda, para estar nas duas. Eu aprendi a como me comunicar com ouvintes. Eu fui capaz de assumir posições de liderança na escola, bom, por causa do IC eu fui capaz de freqüentar uma escola comum para ouvintes. Eu estou mais preparada para o mundo ouvinte. Eu sinto como se eu fosse ambos surda e ouvinte.
Quais posições de liderança você assumiu na escola?
Eu fui presidente do DECA, que era um programa de negócios e serviço comunitário. Fui presidente da minha turma do 2º colegial e fui capitã dos times de vôlei, basquete e lacrosse.
Nessas atividades em que você liderava, você poderia dar alguns exemplos de atividades onde era necessário que você usasse suas habilidades de fala e audição?
Para o DECA eu tinha que fazer reuniões com aproximadamente 130 membros toda segunda-feira, e fazer uma reunião com a diretoria do DECA com 13 pessoas toda sexta-feira. E eu também precisava conversar com pessoas de negócios e pessoas que estavam ajudando. Para a posição de presidente da turma do 2º colegial, eu tinha que participar de reuniões com o pessoal da administração e reuniões com toda a turma. Como capitã eu precisava conversar com juízes e colegas de times. E para o DECA eu não poderia ter feito nada sem a melhor conselheira do mundo, a Sra. Pearson.
O que a Sra. Pearson fez por você? Eu imagino que ela era uma pessoa que compreendia bem a sua perda auditiva?
A Sra. Pearson me tratou como uma filha. Ela me motivou muito quando eu precisei, e ela se importava comigo. Eu me sentia muito confortável pra conversar perto dela, como se ela fosse minha melhor amiga. E sim, ela era muito compreensiva e sempre me disse para não me importar tanto quando cometesse um erro e simplesmente repetir o que eu havia errado.
Por causa da perda auditiva, você encarou muitos obstáculos nessas suas posições de liderança?
Pessoalmente eu não os chamaria de obstáculos. Eu os chamaria de situações “ah tá”. Porque é sempre o que eu digo. As vezes muitas pessoas estarão falando ao mesmo tempo, e ai eu não saberei o que aconteceu. Ou em reuniões, eu ainda estava falando e um monte de gente começava a falar e eu não notava, então a Sra. Pearson me pedia pra parar por um segundo e esperar para que todos ficassem quietos. Eu não fico triste por causa disso, é somente parte da minha vida e eu tive grandes amigos que me contavam depois tudo que tinha acontecido.
Você se lembra como foi a ativação do seu implante coclear?
Só um pouquinho. Eu lembro que eu estava saindo do prédio e indo pro carro e dizendo “o que é esse barrulho?” e minha avó dizia que era um carro buzinando e meu sorriso ia de orelha a orelha. Todo mundo estava muito emocionado, mas eu estava muito feliz.
Você tem alguma lembrança do motivo que te fez querer um implante coclear?
Quando eu tinha 5 anos eu não me lembro de fato, mas no filme eu disse que era porque eu queria ouvir uma batida de carro e pessoas falando na na Florida, mas aos 9, pra ser honesta, foi porque meu irmão disse que ele queria, e eu não podia deixa-lo fazer antes de mim.
Agora que você é adulta, eu imagino que você veria o filme, Som e Fúria, de maneira diferente de quando você tinha 5 anos. Quais são seus pensamentos sobre o filme como uma jovem adulta?
Eu realmente nunca assisti o filme mais do que uma vez. Eu fico envergonhada assistindo, pois na conferencia de Massachusetts as pessoas chegavam em mim e diziam o quanto eu e o filme tínhamos feito diferença em suas vidas, e minha família estava obviamente brigando o tempo todo, muitas emoções estavam envolvidas. Eu fico feliz porque eu sinto como se eu realmente tivesse feito diferença.
Há ainda controvérsias em ambos os lados do mundo surdo, há aqueles que ainda se dizem contra o implante coclear e aqueles que são contra o uso de língua de sinais. Como você se sente em relação a isso?
Como uma pessoa que usa ambos língua de sinais e o implante como grande parte da minha vida, eu acho que eles são burros, e digo isso por não conseguir achar uma palavra melhor. Eu acho que é problema de cada um o que eles querem fazer. Se é que isso faz sentido.
Você acha que acha que há muita falta de informação em ambos os lados?
Às vezes, mas para aqueles que são grandes defensores de qualquer lado, eles geralmente procuram se manter muito informados sobre aquilo por razões especificas. Um lado, e não o outro. Eu acho que há muito preconceito e falta de compaixão.
Voltando aos seus envolvimentos no colegial, eu vejo que você estava sempre muito envolvida com esportes. Você pode explicar como é experiência de praticar esportes como usuária de implante coclear?
Esportes sempre foram a minha maneira de me integrar ao mundo ouvinte. Eu amo pratica-los, então eu sempre treinei. Eu não estou tentando ser a “boazuda” ou elevar meu ego, mas por ser boa, meus amigos quando tínhamos 13 anos ou 14 viram algo além da surdez. Houve incidentes nos quais os juízes não me deixaram usa-lo, ou quando eu recebia uma penalidade por me mover antes do apito, mas foram raros. E eu aprendi com eles. Quando alguém cai, os outros caem junto.
Eu sei que o colegial é uma correria e empolgante para muitos, você poderia compartilhar algumas das suas melhores memórias e conquistas no colegial?
Eu tenho que dizer, sair com meus amigos, sair para jantar, para festas e ir à conferencias do DECA. Tudo isso, era o melhor e mais divertido! Eu me formei com 9 premios, toneladas de amigos e professores maravilhosos, e eu sentia que fui reconhecida pelo que fiz no colegial independente da minha surdez. O colegial foram os melhores anos da minha vida até agora.
Você usou alguma acomodação? Se sim, qual?
Eu usei uma interprete para minhas aulas e terapia de fala em casa. E se precisasse, ela fazia hora extra nos dias de prova, mas normalmente não precisava.
Eu sei que muitos adolescente não gostam de ter terapia de fala porque eles acham que não e divertido e que não sobra tempo para outras atividades, mas o que te fez manter as terapias de fala?
Eu os entendo perfeitamente. Entretanto, minha terapeuta de fala, Betty tem sido parte fundamental da minha vida. Eu quero ter a melhor fala possível. Claro que fiquei um pouco sem tempo para outros atividades, mas agradeço muito minha fala e agradeço muito a Betty. Sem isso, eu não estaria aonde estou hoje.
O que influenciou na sua decisão de ir para Georgetown (Universidade)? Você tem planejado usar alguma acomodação por lá?
Georgetown…simplesmente pisei no campus e pensei “é isso”. Eu simplesmente soube que era a faculdade que eu queria ir. E sim, tenho planos de acomodações. Eu tenho conversado com o pessoal do centro acadêmico sobre ter um interprete e eles estão sendo maravilhosos.
Através de pessoas que ouviram seu discurso em Sturbridge (Cidade), eu fiquei sabendo que você disse que sua família se mudou para Rochester e você ficou com sua avó em Nova York. Eu imagino que foi uma decisão dificil certo? O que fez você optar por ficar em Nova York com sua avó?
Na verdade, meus pais sabiam que eu queria ficar porque eu estava terminando o 2º ano do colegial e eu tinha trabalhado duro para chegar aonde cheguei na escola. Eles então me disseram “você pode ficar” e eu fiquei.
Eu fico muito feliz em ouvir que você teve pais que te apoiaram. Eu percebo que no filme você parecia bem próxima da sua avó. Eu imagino que ela. Sra. Pearson e Betty, foram pessoas muito importantes na sua vida?
Betty, Sra. Pearson, vovó. Tia Jeanette. Tio Jay, meus pais, todo mundo que considero importante na minha vida. Todos eles de alguma maneira me deram algum tipo de suporte e encorajamento. E minha melhor amiga Alison.
Quais são seus objetivos, alguma aspiração para o futuro? Onde você gostaria de se ver nos próximos 10 anos?
Meu objetivo é me formar em direito, me tornar uma advogada. Ainda não se qual área, talvez direito constitucional. E sair da escola o mínimo de debito possível. E em 30 anos, gostaria de me tornar juíza da do supremo tribunal.
Heather na sua formatura do Colegial
Pessoal, espero que tenham gostado do post de hoje. Eu adorei a história da Heather, tanto que quis compartilhar com vocês.
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 0 comentários
O texto a seguir foi originalmente postado no Desculpe Não Ouvi (clica ai no l ink pra ser redirecionado). É um assunto que vem sendo discutido há dias em um grupo do facebook. Que eu particularmente cansei de postar, só fico lá lendo. Segue o texto.
Aqui, querendo debater…
Pessoalmente, eu não tenho nada contra o povo surdo se vender como cultura, porque existe cultura skatista, cultura emo, cultura geek (não sei se no sentido antropológico do termo, mas no sentido popular do emprego ao termo CULTURA), mas enfim… E, alias, se também quiserem se comparar aos índios, negros, aborígenes ou qualquer outro povo do universo, tranquilo.
Levando em conta que o Brasil tem 270 línguas (li alguém alegar isso, mas não confirmo, porque não estou nem um pouco afim de vagar em busca de evidências sobre o tema), embora só tenha UM idioma oficial, o português (inclusive é um dos pontos fortes do Brasil, visto sobre o ponto de vista empresarial) que faz as empresas multinacionais se animarem de vir pra cá, uma vez que apenas um idioma terá que ser ensinado aos funcionários e apenas um idioma é escrito na maioria dos produtos (salvo aqueles que seguem a regra do Mercosul e incluem o espanhol). Se os nativos das outras 269 linguas não tem direito a privilegiá-la ao português, pode até ser visto como algo meio desrespeitoso os surdos terem, mas ainda assim, tô nem ai. De repente, não batalharam pra ter a emancipação do seu idioma e, quem sabe futuramente, sigam o exemplo da Cultura Surda e o Brasil se torne como a Índia, com 2 idiomas oficiais administrativos, 23 idiomas federais oficiais, 200 Línguas reconhecidas e mais de 2000 dialetos e o povo se comunique mesmo em hindi e num inglês macarrônico que serviu para dominarem o mercado de telemarketing dos EUA (sem ofensas, porque acho isso sensacional!).
O que pega é aceitarem essa apologia de ódio aos ouvintes e a quem compactua com a oralização. Sairem pregando que a oralização é uma tortura a que crianças são submetidas. Saírem ridicularizando a voz dos surdos oralizados. Saírem pregando contra o Implante Coclear e quererem barrar o teste da orelhinha (se alguém duvida, eu posto link de vídeos falando mal desse exame!). Saírem dizendo que todos os deficientes auditivos que não se submetem à supremacia da Cultura Surda são infelizes e não sabem. Ao ponto que são chamados de suicidas em potencial e precisam ser salvos de si mesmos. Precisam reconhecer que só existe uma verdade absoluta: só a cultura surda funciona como estilo de vida. Que só existe um caminho para a felicidade suprema. Que quem não quer aprender LIBRAS está sendo preconceituoso e blablablabla sem fim, exigindo-se aqui um respeito em via de mão única. Acho absurdo que seja permitido que, para se autoafirmar e se firmar como modo de vida aceitável, queriam exterminar quem pensa diferentes. Querer se vender como cultura, ok. Querer provar pra Deus e o mundo que são felizes assim, perfeitamente. Querem alterar a constituição pra LIBRAS virar idioma oficial junto com a língua portuguesa, tô nem aí, não opino. Mas, acho inaceitável que seja permitido que preguem o preconceito, a intolerância e o ódio com a calma que fazem. Atacarem blogs por falta de interpretação correta de texto. Mandarem email xingando mães que optam pela oralização e dizerem que é melhor pra criança surda ser morta do que oralizada! Isso sim, deveria ser passível de processo na justiça!
Pior ainda são ouvintes que compactuam com essa mentalidade e ficarem atormentando os surdos oralizados, ridicularizando a voz deles (li aqui alguém escrever que a voz dos oralizados não é, pasmem, HUMANA!), dizer que foram condicionados a pensar como pensam, simplesmente porque se acham no direito de saber sobre o outro mais que ele mesmo. Num mundo que não existe apenas uma religião, uma filosofia de vida, uma única regra de dieta alimentar, um único time de futebol, vão exigir que todo e qualquer deficiente auditivo se comporte do jeito que dita e determina a cultura surda?
Respeito é via de mão dupla. Defendam o lado de vocês, MAS PAREM DE ATACAR QUEM NÃO QUER VIVER ISSO! PAREM DE EXIGIR QUE ESSE SEJA O ÚNICO CAMINHO ACEITÁVEL! PAREM DE IMPOR QUE SURDOS ORALIZADOS TEM QUE ENXERGAR QUE SÃO INFELIZES! Uma coisa é você achar que está no caminho certo. Outra é achar que é o único caminho! Até segunda ordem, o Brasil é um país onde a liberdade de escolha é respeitada, portanto, não lhes cabe o direito de cercear essa liberdade.
EU E MEU BLOG DIZEMOS SIM A ORALIZAÇÃO! SIM AO PORTUGUÊS COMO PRIMEIRO IDIOMA! SIM AO USO DA PRÓTESE AUDITIVA, DO IMPLANTE COCLEAR, DO IMPLANTE BAHA e qualquer outra tecnologia que nos permita ouvir artificialmente! SIM AO TESTE DA ORELHINHA! E, SOBRE TUDO, SIM A LIBERDADE DE PODER ESCOLHER ESSA CORRENTE DE PENSAMENTO!
Não interessa se somos minoria, se somos apenas 20% da população surda (a base dessa porcentagem estatística? Comentários dos próprios defensores da comunidade surda), ainda temos o direito de existir. Deficientes auditivos representam apenas 3% da população brasileira e estão exigindo emancipação como cultura e do idioma, não é mesmo? Então, que aceitem a existência desses 20% oralizado tal qual querem que 97% da população ouvinte os aceitem.
Quem quiser pensar e agir diferente, tem o mesmo direito que eu. Mas, em momento algum, tem direito de me atacar por pensar como penso!
beijinhos sonoros,
Lak
p.s. E aos ouvintes que compactuam com a cultura surda e se acham no direito de ridicularizar a voz do surdo oralizado, fiquem ciente que não importa que a nossa voz soe como o grasnado de uma avestruz ou um zunido de besouro, se um deficiente auditivo consegue se fazer entender perfeitamente com a voz oral, ele tem todo o direito de usá-la! E vocês não tem o direito de ridicularizá-los por isso, tentando usar da vergonha para justificar que deveriam abraçar tão e somente a língua de sinais! Vocês podem ter vozes bonitas e sonoras, mas as palavras amargas que proferem torna vocês os verdadeiros monstros!
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 0 comentários
Gente, só passando rapidinho pra contar uma novidade sobre o IC. Bom telefone muita gente sabe que me arrisco a usar as vezes, especialmente com minha tia, dependendo do ambiente consigo falar tranquilamente. TV ainda apanho um pouco, e no PC consigo entender 90% das coisas, mas foi fim de semana passado que testei vide chmada no MSN com minha mãe. Ela ia apenas ver se estava tudo funcionando, então eu resolvi ver se estava dando conta de usar já a vídeo chamada, e para minha surpresa (porque eu sempre fico com pé atrás) consegui conversar com minha mãe normalmente.
Minha mãe e eu na video chamada, a unica coisa que conversamos por escrito foi o que está na tela rs.
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 1 comentário
Essa semana, eu fui entrevistada pela Lak Lobato para a coluna dela no Acessibilidade Total. Então como toda entrevista rs, o entrevistado participa da criação do texto. O texto foi originalmente postado na Coluna da Lak no Acessibilidade Total (o link vai redirecionar pra entrevista, mas quem quiser a coluna em si ou só o site é só clicar no nome completo da Lak lá em cima e no nome do Site também lá em cima, vale a pena). Aqui vai a entrevista na integra pra vocês.
Aulas Acessíveis 2: Transcrição de Aulas
POR LAK LOBATO 26 DE OUTUBRO DE 2011
Se tem algo que é um ”sonho de consumo” para os estudantes surdos oralizados, é a transcrição das aulas por estenotipia. Você já ouviu falar disso?
É, provavelmente, não. Aqui no Brasil, não sei de alguma escola ou faculdade que ofereça esse serviço. Que eu saiba, só existe duas empresas de estenotipia no Brasil.
Mas, afinal, o que seria estenotipia? Basicamente, a transcrição de textos por escrito, conhecido em inglês como CART – Communication Access Reatime Transation – algo como “Tradução de comunicação acessível em tempo real”, o mesmo sistema usado para produzir a legenda oculta (closed caption) dos canais de televisão, com a diferença que, nesse caso, é usado em sala de aula.
O estenotipista digita tudo o que ouve num aparelho chamado estenotipo, que possui um teclado especial, com as teclas dispostas em código, permitindo que o estenotipista escreva de maneira muito mais rápida. Para você ter uma idéia, um bom estenotipista digita 300 palavras por minuto (ou mais, dependendo da destreza do profissional). Numa aula com transcrição simultânea, o estenotipista senta do lado do aluno com deficiência auditiva e digita com o estenotipo conectado a um computador, cuja tela fica virada para o aluno, que copia a matéria. Mas, o mais legal é que não apenas a matéria é digitada, mas toda e qualquer informação sonora da sala de aula: fala de professor e aluno, risada da turma, aplausos, etc .
Como eu não tenho qualquer conhecimento da causa, porque nunca vi um aparelho desses na minha vida e, até pouco tempo atrás, nem sabia que isso existia, pedi para uma amiga, Diéfani Favareto Piovezan, que morou boa parte da vida nos Estados Unidos e teve oportunidade de assistir aulas de universidade com esse recurso de acessibilidade, nos explicar um pouco sobre o estenotipo.
Lak:Então, você perdeu a audição gradualmente, né? Quando começou a ter dificuldade em sala de aula?
Diefani : Sim, comecei perder gradualmente quando tinha 14 anos, mas dificuldades mesmo comecei a notar dois anos depois já com 16.
Você estava em que série?
Era nos EUA, 10th grade, segundo ano do colegial. Lembrando que o colegial lá possui quatro anos e não três como aqui.
Bom, quando você soube do sistema de transcrição de aula?
Na verdade só fiquei sabendo quando já estava na faculdade. Eu tinha visto na Comunidade (do Orkut) de Tecnologia Para Surdos sobre a companhia C-Print que trabalha com isso. E minha professora me orientou a procurar o departamento de deficiências da faculdade. Lá no departamento comentei sobre o C-Print e soube que não usavam o C-print, mas contratavam estenotipistas particulares e que já havia alguns alunos surdos que usavam.
E como é o trabalho do estenotipista?
Basicamente, ele transcreve as aulas, palestras, o que for preciso. Se for necessário digitam horas a fio. O trabalho deles consiste não só em transcrever as aulas e palestras, mas integrar o aluno no ambiente escolar e na sala de aula, escrevendo o que se passa ao redor, os comentários que outros alunos fazem, por exemplo. Escrevem também sobre os barulhos do ambiente como palmas ou música. Fora isso, eles gravam tudo, depois revisam em casa porque às vezes, não conseguem entender algo. E repassam pra gente por e-mail pra estudarmos depois.
Quanto tempo leva pra entregarem a transcrição?
No mesmo dia, à noite ou no dia seguinte. Nunca passava disso.
E a faculdade que oferecia esse serviço ou o aluno contrata por fora?
A faculdade, eu não pagava nem um centavo. Eu era bolsista, mas mesmo os alunos que não eram não pagavam. As escolas e faculdades lá são obrigadas a fornecer acessibilidade e melhorar as instalações para alunos com qualquer tipo de deficiência.
Como era feito o serviço? O estenotipista ia lá, gravava a aula e mandava pra você ou já digitava algumas coisas em sala de aula?
Já digitava na aula, ele ia com o estenotipo e o laptop. O laptop ficava logo ao lado do meu caderno, enquanto ele digitava, eu ia tomando notas do que o professor falava e aparecia na tela. O lance de mandar depois é porque algumas palavras não estão no dicionário deles, ou algum barulho interfere e não entendem, ou às vezes o professor acaba falando enrolado mesmo, ai eles anotavam o que entenderam ou colocavam entre parênteses pedindo desculpas dizendo que não entenderam. Noutras vezes, o aluno também precisa beber água ou ir ao banheiro e perdia parte da explicação, então mandavam por e-mail com as correções e partes perdidas enquanto o aluno estava fora da sala.
E isso te ajudava a compreender a aula melhor?
Muito melhor. Antes só entendia o que era escrito na lousa, o resto eu tinha que me virar, ler e pesquisar pra entender mais sobre o assunto, depois com o estenotipista não precisava . Quando ia estudar pra prova, conciliava o livro com as aulas transcritas enviadas por e-mail e as notas eram sempre acima da média depois.
E esse serviço é comum nos Estados Unidos?
Sim, muito comum, depois fui apresentada a outros alunos surdos pelos estenotipistas. Havia 5 alunos surdos além de mim, que usavam o serviço. Inclusive uma me disse que apesar de ser bilíngüe (usava língua de sinais e inglês oral, falando e fazendo leitura labial), ela preferia a estenotipia, porque achava ficava tudo mais clara a compreensão, em relação ao ensino fundamental e médio ela usou intérpretes. Ma faculdade o diretor do departamento de deficiências falou sobre a transcrição, e ela quis testar, ai ela disse que ficou maravilhada.
Há quanto tempo existe esse serviço por lá, você sabe?
Não faço idéia, mas a minha principal estenotipista (eram vários por questão de cansaço) me disse que na área de transcrição pra surdos ela está há mais ou menos 10 anos. Antes ela trabalhava como estenotipista para tribunais. Ela trabalha com isso há mais de 20 anos.
Acontecia dos alunos ouvintes pedirem cópia do seu material?
Já pediram, mas a verdade é que o diretor do departamento de deficiência disse que eu não deveria. Então no Maximo, eu repassava o que estava lá, mas com as minhas palavras e também, só passava o que eles tinham dúvidas. Mas, foram poucas vezes, dá pra contar nos dedos das mãos e ainda sobra.
Agora que você está fazendo faculdade aqui no Brasil, como faz para assistir as aulas sem esse sistema?
Bom, agora aqui no Brasil é mais complicado. Na verdade, atualmente com o IC consigo acompanhar todas as aulas sem problemas, as notas baixas são por conta da dificuldade mesmo (risada), mas antes de fazer o IC e antes de ele realmente me fazer ouvir (o implante coclear requer algum tempo de adaptação), eu pedia pros professores darem uma ajuda extra, falarem virados pra mim, me repassarem slides. Os colegas de sala me ofereciam as anotações pra copiar e, logo após eu ter feito o IC, uma colega de sala que era promotora me sugeriu interprete oralista, mas eu não quis.
Você sabe qual o preço do aparelho de estenotipia nos EUA?
Sim, os aparelhos custam em torno de cinco mil dólares.
É, são caros. As faculdades possuem um aparelho ou contratam o serviço?
Contratam os serviços, o aparelho é do próprio estenotipista, ele escolhe o que for melhor pra ele. A faculdade só paga as horas que eles trabalham, e pelo que sei, são bem remunerados, tanto que ano passado o marido da mesma estenotipista que citei anteriormente como sendo a principal, perdeu o emprego, ela quem sustentou a casa sozinha por oito meses, mantendo as duas filhas mais velhas na faculdade e as mais novas em escolas particulares sem problema algum.