22
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 11 comentários

Eu ando meio sumida ultimamente, muita coisa tem acontecido e eu tenho assunto pra pelo menos mais 3 posts aqui no blog, mas no momento gostaria de tratar de um assunto que muitos desconhecem, muitos sentem na pele e outros fingem não ver: O PRECONCEITO COM SURDOS.

A ideia surgiu a partir de uma postagem de um primo meu no facebook. A postagem em questão era uma entrevista com Antonio Fagundes, falando sobre seu personagem homofobico na novela Amor à Vida na qual seu personagem tem um filho gay e a ultima pergunta que fizeram foi sobre a peça que ele está ensaiando e onde contracenará com seu filho. A resposta foi “É sobre uma família disfuncional, formada por pai, mãe e três filhos. E um dos filhos é surdo. Mas ele é criado como se não fosse. Eles o ensinam a falar e a ler lábios. Tudo corre bem até que ele conhece um garota, que também está ficando, por quem ele se apaixona. O problema é que ela está aprendendo a linguagem dos sinais e ensina pra ele. Isso causa um alvoroço na família. Agora, troque filho surdo por filho gay. Não parece a mesma discussão da novela? Estreia de 14 de setembro, no Tuca, em São Paulo. Meu filho, o Bruno Fagundes, faz o surdo.”

Esse primo meu, que é gay, ativista e militante da causa homossexual comentou o seguinte ao compartilhar o link não, não é o mesmo “problema” entre o preconceito contra o surdo e o preconceito contra o homossexual, mesmo porque ninguém apanha na rua por ser surdo, nenhum pai deserda um filho por ser surdo.”

Minha primeira reação foi primitiva, fiquei brava, como ele poderia falar algo sem conhecer? Minha segunda reação foi comentar calmamente sobre discordar e o motivo de eu discordar. Minha terceira reação foi pensar e depois repensar e escrever no blog sobre o assunto.

Caros leitores, embora muitos desconheçam histórias e até pensem “mas quem vai fazer algo assim com um surdo ou um deficiente, coitadinhos” quem vive cercado por surdos sabe que o buraco é bem mais embaixo e o problema pode sim ser considerado o mesmo. “Ah Diéfani, para de querer causar polêmica e de querer fazer os surdos de coitados.” Não, eu não estou exagerando.

Homossexuais apanham na rua, na escola, são alvos de chacota, são expulsos de casa pelos pais, são abusados sexualmente, são deserdados pela família, são humilhados, são proibidos de demonstrarem afeto em publico, em muitos lugares são proibidos de casar e muitos pais dizem que preferiam filho ladrão, bandido do que gay. “Tá a gente sabe tudo isso, mas como você ainda pode falar algo assim sobre os surdos?” amigos, os homossexuais, tem VOZ, tem espaço na mídia e não só tem muitos direitos, como são vistos pelo mundo e os surdos?

Conheci surdos usuários de LIBRAS, surdos oralizados e surdos bilíngues e vocês ficariam horrorizados com a quantidade deles, homens e mulheres que foram abusados sexualmente pelos pais ou algum cretino oportunista. Na maioria das vezes o que eles ouviram de quando eram crianças até o começo da adolescência foi “Isso vai te ajudar” e a criança sem entender o que acontecia nunca falava nada, mas mesmo depois de entenderem, aprenderam apenas a evitar, porque ao tentar contar achavam que estavam mentindo porque “quem faria isso com uma criança que nem pode ouvir?”

Na escola e nas ruas não é diferente, são apontados, são alvo de bullying e piadinhas cruéis. Conheci incontáveis surdos que disseram que apanhavam na rua pelo simples fato de serem surdos, eram agredidos porque eram “aberrações” e alvos fáceis. Há surdos que ficam na casa dos pais apenas até os 18 anos porque a lei obriga, mas com 18 anos os filhos são EXPULSOS de casa e a família nunca mais quer saber, se está morto ou se está vivo “não é problema deles.”

Muitas crianças surdas são criadas sem aprender nenhuma forma de comunicação, cresce com os pais que são dois estranhos com quem mal conseguem se comunicar e o contato com o mundo exterior é ZERO, se ela for inserida na sociedade ela não vai conseguir nem dar oi pra uma pessoa. Muitos desses são mais tarde “salvos” por alguém, que com muita paciência os levam pra escolas de surdos, onde se alfabetizam e aprender a se comunicar, mas é assustadora a quantidade de surdos que ficam pra trás.

Para uma criança nascida em família ouvinte, antigamente muitas vezes eram trancados em hospitais psiquiátricos até o fim da vida, mas existe os casos das famílias que levam a criança em uma fono para falarem, usarem aparelhos auditivos, fazem implantes cocleares, ensinam a ler lábios mas se o filho acaba se interessando pelo “mundo” surdo e quer ter amigos surdos, aprender LIBRAS e coisas desse tipo, é como se estivessem assassinando alguém. A família não aceita, acha errado e quer que o filho viva uma vida “normal” com gente “normal”.

Por outro lado, há as crianças surdas que nascem em famílias surdas e são deserdadas, humilhadas pela família e comunidade surda em que vivem, quando querem aprender a falar ou até usar um implante coclear. Para a família não existe coisa pior, eles dizem que se sentem rejeitados pelo membro da família que quer “ser ouvinte” e dizem coisas como “ele vai ser uma aberração, não vai ser surdo e nem ouvinte, ninguém vai aceita-lo é melhor que morresse.”

Há ainda os casos de preconceito de Surdos usuários de LIBRAS contra os Surdos usuários da Língua Portuguesa. Em fóruns de discussão já vi Surdos sinalizantes desejarem a morte para a filha de uma amiga minha, que é surda oralizada e falarem que surdos oralizados são potenciais suicidas.

Fora aqueles probleminhas HUMILHANTES que acontecem com praticamente todos no dia-a-dia. Tem que pegar senha mas não dá pra ouvir chamar e não tem monitor, tem que resolver algo pelo SAC de uma empresa mas não pode ser outra pessoa, não pode ser numa loja física da empresa e nem por e-mail ou chat, TEM QUE SER POR TELEFONE. Vai estudar e às vezes acontece de alguém dizer “seu lugar não é aqui, deveria ir pra escola especial”, precisa pedir acompanhante em um aeroporto porque não ouve os auto falantes e não dá pra se virar completamente sozinho. Tem que quase ajoelhar na frente de um professor e implorar pra que ele explique a matéria virado pra frente pra que possa ler os lábios. Acabar não indo a certos lugares como teatro, cinema porque não tem legenda e interprete de LIBRAS. Mercado de trabalho? Até por cota é difícil conseguir um emprego, na maioria dos lugares eles aceitam deficientes físicos, visuais, mas surdos não, porque a surdez “atrapalha a comunicação”. Um a amiga uma vez disse que estava com o marido na feira e falavam sem som, já que ele apesar de ouvinte aprendeu a ler lábios e uma senhora perguntou o motivo para aquilo e ele explicou que a minha amiga é surda e a mulher “Ah que bom que você trouxe ela pra dar uma voltinha” como se a minha amiga fosse um cachorro ou uma inutil. Outros ainda ficam horrorizados ao saber que podemos dirigir porque somos “perigosos” por não ouvir sirenes e buzinas.

E quem fala por todos esses que sofrem discriminação? Ninguém. Quando aparecem na mídia falando de direitos e acessibilidade para surdos o que já é raro, é focado pros surdos usuários de LIBRAS e o resto fica de fora. O fato é que num geral, somos invisíveis pra sociedade. Não temos assim como homossexuais, boates, bares, restaurantes, hotéis e outras coisas que são focadas naquele grupo e seus simpatizantes. Mal há escolas especiais (que alguns preferem), algumas escolas se recusam a aceitar um aluno por ele ser surdo. É como se por sermos surdos, deveríamos ficar enfiados em casa.

Para um gay, a opção de dizer “Eu sou gay” existe, mas para um surdo não, se um surdo quer ter uma boa comunicação com todos ao seu redor, precisa sempre avisar e falar “Eu sou surdo” ao que quase instantaneamente se ouve depois “mas tão bonita” ou “nossa que dó” entre outros absurdos. Isso quando não acham que é contagioso e tiram seus filhos de perto (sim em pleno século XXI isso ainda existe). Ai dizem “Ah mas na maioria dos lugares gays não podem casar” bom sabiam que até pouco atrás em muitos países, casamentos entre surdos era proibido, assim como casamento inter racial e que isso só mudou porque nem sei quem, viu que era ridículo demais, ainda mais vendo o fato de que muitos surdos passavam a vida inteira tendo contato unica e exclusivamente com surdos sem nunca terem conversado ou interagido de verdade com um ouvinte?

Estamos há anos tentando conquistar um direito MINIMO de ter closed caption ou legendas em programas de TV, cinemas, teatros, mesmo quando for algo dublado ou nacional e nem isso conseguimos. E o motivo? Como eu disse, somos invisíveis. Só pra deixar claro, deficientes num geral são invisíveis e às vezes ser invisível cansa e muitas vezes leva a querer desistir de tudo, inclusive da própria vida. Enquanto isso, gays conquistaram espaços exclusivos pra eles, casamento tá sendo legalizado, entre muitas outras coisas.

Tudo isso me fez lembrar uma frase do filme Filadélfia, com Tom Hanks “O Ato Federal de Reabilitação Vocacional de 1973 proíbe discriminação contra pessoas deficientes e com qualificação capazes de executar as tarefas exigidas pelo seu emprego. Apesar da lei não se referir diretamente à discriminação relacionada ao HIV e à AIDS, decisões subsequentes sustentaram que a AIDS é considerada como deficiência dentro da lei, não apenas por causa das limitações físicas que impõe, mas porque o preconceito que a envolve causa uma morte social que precede a morte física. Esta é a essência da discriminação: formular opiniões sobre outros, baseadas não em seus méritos individuais, mas em sua afiliação a um grupo com supostas características.”

As palavras desse projeto de Lei são diferentes, essa frase tem o intuito de explicar de uma forma que possa ser compreendido, e o foco do filme era AIDS, mas a parte da morte social que precede a morte física está lá mesmo antes da AIDS ter sido introduzida como uma deficiência perante a lei. Refletindo, morte social é um termo extremamente pesado, mas o preconceito em relação às pessoas com deficiência e isso inclui os surdos causa uma morte social e o que pode ser pior do que estar vivo, mas morto pra sociedade?

Esse post teve o intuito de única e simplesmente dizer que ninguém deve falar daquilo que não sabe, daquilo que não conhece e de meios em que não vive, a grama do vizinho sempre parece mais verde e os nossos problemas sempre nos parecem piores. E como eu disse, ser invisível às vezes cansa, queremos ser vistos, mais do que vistos, queremos ser ouvidos e sermos vivos aos olhos da sociedade.

Procura ai
Que dia é hoje?
November 2017
M T W T F S S
« Jul    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  
Contador de Visitas

Licença Creative Commons
O trabalho Igualmente Diferentes de Diéfani Favareto Piovezan foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Brasil.
Todos os direitos reservados - Design e Programação Igualmente Diferentes