Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 2 comentários
Gente, no dia que embarquei pros EUA, um surdo vendendo chaveiros com aqueles papeizinhos “sou surdo me ajude comprando esse chaveiro por dois reais” apareceu, eu não comprei, mas comentei com minha tia que às vezes compro, porque ser surdo no mercado de trabalho é complicado, pra achar algo é uma labuta, mas que também não confiava em todos que apareciam vendendo essas coisas e acabei citando esse video:
Que é uma surda tentando conseguir um emprego numa cafeteria, mas não consegue por causa da surdez. O cara alega várias coisas e muitos clientes se revoltam saindo da cafeteria ou defendendo a moça. Entretanto, aparece uma falando que pessoas com deficiência tem mais direitos do que qualquer um, e que se ele não aceitasse a aplicação de trabalho dela, poderia ser processado e então a mulher diz “aceite a aplicação, só não ligue depois.” No fim ele passa a aceitar a aplicação e finge que vai ligar.
Uma amiga minha viu o video e ficou revoltada dizendo “Deve ser isso que fazem quando você manda o seu curriculo, isso é ridiculo e ultrajante.”
Pois bem, comentei tudo isso com minha tia e ela disse o seguinte “Às vezes acho que não é nem preconceito, mas desespero, na verdade dá uma certa angustia falar com um surdo, especialmente se ele não foi oralizado ou não usar protese auditiva, porque ai você vai ter a certeza de que a comunicação vai ser dificil e limitada. Você mesma antes do implante, a gente te falava as coisas e se você não dissesse nada a gente ficava naquela coisa de “ai será q ela entendeu?”, porque quando a gente conversa com um cego, ele não está vendo você, mas ele te entende, se comunica, não existem barreiras pra isso, com um surdo não acontee o mesmo, é angustiante não saber se a pessoa tá balançando a cabeça porque entendeu ou se é porque não entendeu e não quer perguntar de novo, ou ver a pessoa sinalizar sem você entender nada. Acredito que no final, pra se livrarem dessa barreira, eles pulam fora e descartam logo quem tiver surdez.”
Pois bem, eu nunca havia pensado dessa forma, que talvez não seja sempre somente por preconceito ou falta de informação, mas angustia pela dificuldade ou limitação na hora de se comunicar. Porque a gente sempre pensa na NOSSA angustia de não entender os outros, na nossa agonia de querer se comunicar direito sem às vezes conseguir, mas nunca pensei que no lado de lá isso também rolasse. Vivendo e aprendendo.
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 0 comentários
Não é novidade pros meus leitores de longa data e amigos, que eu morei nos EUA por 6 anos, que foi onde eu perdi minha audição completamente. Como muitos sabem, eu tenho neuropatia, então a compreensão das falas e do som, mesmo quando ainda ouvia um pouco, era de uma qualidade absurdamente baixa.
Muitos me perguntam como fiz pra aprender inglês, em primeiro lugar, eu já tinha uma base de quando ouvia, mas era mais por conta de vídeo games, filmes e séries, na verdade, eu sabia um pouco de gramática e vocabulário, mas não falava porcaria alguma. Também fiz aulas particulares um tempo, mas depois fiquei mais de um ano parada sem estudar.
Quando cheguei nos EUA, minha audição já estava se deteriorando, fui pra escola e lá me mandaram pras salas de aula de ESL ( English as Second Language), os professores falavam inglês mais devagar, o que dava a chance de captar melhor a leitura labial, em 3 meses fui transferida para salas regulares, foi onde a tormenta começou.
Nas salas regulares, eu não conseguia entender muito bem, por causa da velocidade em que falavam, quando falei que tinha um pouco de dificuldade auditiva, me mandaram pra fazer exames no médico autorizado da escola, que disse que estava tudo bem…mas bom, na época eu ouvia, o problema era discriminar a fala e sons.
Inglês não é um idioma muito bem articulado, o que conta na língua inglesa, é o movimento da língua, não dos lábios…se alguém falar a palavra “Love” por exemplo, pode-se muito bem falar bem articulado pra Deus e o mundo compreender, ou pode nem mexer a boca direito, mas se o movimento da língua estiver certo, ela sai perfeita.
Foi com a ajuda de professores extremamente pacientes e prestativos, assim como excelentes amigos e vizinhos, que consegui superar os obstáculos e ir aprendendo. Todos articulavam bem pra que eu pudesse entender e captar como se falava a palavra, as vezes eu ficava repetindo até eles dizerem “pronuncia está perfeita.”
Mas a atenção deve ser dobrada, porque não vale apenas prestar atenção no movimento dos lábios, é preciso ficar atento ao movimento da língua. Se é fácil? Não, mas não é impossível. Eu sugiro aulas com professores particulares, porque assim fica mais fácil ele prestar atenção e ajudar com a pronuncia, numa sala com vários alunos fica difícil fazer isso.
“ Ah Diéfani, mas quero fazer em um escola porque recebe certificado.” Vá a uma escola então, mas converse com o professor e os colegas da sala de conversação, honestamente? Seria uma aventura até boa, pois assim você vai se acostumando com diferentes pessoas falando além do professor, e se acostuma também com os diferentes sotaques.
Para os surdos usuários de IC e próteses que ouvem legal, eu sugiro que assistam DVDs com legendas em inglês, isso ajuda MUITO.
Se alguém quiser perguntar algo mais especifico, só deixar comentário com email que respondo no comentário e no email depois.
Publicado por Diéfani Favareto Piovezan | 3 comentários
Pensando em atitudes alheias que magoam uma pessoa que tem deficiência auditiva, várias me ocorreram. Porém, como tudo na vida, dói mais quando vem das pessoas que gostamos. Não é verdade? Quando um estranho tem uma atitude dessas, a gente nem dá bola, afinal, não vale o gasto de energia. Mas quando alguém próximo nos magoa (mesmo sem intenção), chega a parecer traição. E das graves.
Duas coisas me tiram do sério – por 5 minutos, mas tiram. Primeiro, quero estrangular a pessoa, depois, esqueço. Mas meu sangue ferve, porque sou humana, né?
PRIMEIRA: Quando alguém que você adora (pode ser mãe, irmão, amigo, namorado, filho, marido, etc) age como um idiota completo que nada sabe sobre surdez apesar dos longos anos de convivência com você e solta a maldita frase:
- Mas você não está de aparelho???
Aaaargh!! Pra completar, só se a pessoa em questão dá aquela olhadinha para as suas orelhas pra confirmar a suspeita. Meu Deus!! Me considero uma pessoa sensata e calma na medida do possível mas, quando isso acontece, minha reação primitiva é a de querer tirar meus AASI e fazer a pessoa engolir. E a triste verdade é que isso acontece MUITO. Acho que a gente se acostuma a a abafar o caso e não surtar quando se trata de familiares e pessoas próximas. Com eles, temos 1.000x mais paciência do que com estranhos. O trágico é que eles deveriam ter 1.000x mais paciência e respeito conosco do que efetivamente têm.
SEGUNDA: Quando estou numa conversa com alguém próximo ou, outra opção, quando estou distraída e a pessoa fala algo que não entendo. A questão é não entender o que foi dito. Aí, a(o) bendita(o) solta a pérola:
- Deixa. Esquece. Não é nada. Não importa.
Jesus!! A reação primitiva é sentir vontade de pegar o interlocutor pelos cabelos como faziam na Idade da Pedra e arrastá-lo pelo chão dizendo “importa siiiiiiiiiimmmm!”.
Do fundo do coração, não acho que eles façam isso de propósito, com a intenção de nos deixar mal, de magoar, de ferir. Mas é tremendamente irritante a desatenção de quem mais convive conosco para coisas básicas. De quantos anos a família, os amigos, os colegas, etc precisam pra entender de uma vez por todas que estar de aparelho auditivo não é garantia de que vamos entender tudo o que é dito e que é horrível quando não entendemos e eles não querem repetir??
E vocês? Que tipo de atitude das pessoas próximas os magoa pra valer??
Até aqui o Texto foi escrito pela Paula e o texto original pode ser encontrado no Crônicas da Surdez. Mas já que a ultima frase dela foi uma pergunta, vou aproveitar pra acrescentar o que me magoa ou deixa brava.
- Falar quando obviamente estou sem o IC
Eu acabo de sair do banho, com o cabelo pingando, e alguém vem falar comigo, e depois ficam extremamente bravos porque eu estava sem o IC e não entendi, porque ao invés de virem e falarem comigo frente a frente, ou falam de costas ou falam quando não estou olhando. Já cansei de discutir aqui em casa e falar que o IC não funciona Wi-FI como a internet, que o processador precisa estar na minha cabeça pra funcionar, que ele não é a prova d’água o que me obriga a tirá-lo pra tomar banho, e que quando eu acordo – embora às vezes durma com ele – eu não o coloco imediatamente, porque meu mau humor precisa de uma meia hora pra ficar bom e ai sim posso ligar.
- Achar que sei técnicas Ninja de leitura labial
Eu leio lábios muitissimo bem, mas dai achar que consigo entender TUDO que TODO MUNDO fala, em qualquer velocidade, articulação, tipos diferentes de lábios, com barbas e bigodes e outros obstáculos, é demais pra minha cabeça. Não eu não sei nenhuma técnica ninja de leitura labial, sou humana, erro, não entendo, muitas palavras a articulação é parecida, fora outros fatores, então não fiquem achando que tenho obrigação de entender tudo.
- Todo mundo falando ao mesmo tempo
DE NOVO não, eu não tenho técnicas ninja de leitura labial e MUITO MENOS consigo ler os lábios de 3/4 ou mais pessoas ao mesmo tempo – pra quem usa LIBRAS e diz que seria vantagem a LIBRAS em cima disso, se poupe do trabalho, eu tenho dois olhos e não da pra ficar um em cada direção, então mesmo LIBRAS não me salvaria – então me dá nos nervos quando estou falando com alguém e mais dez pessoas falando junto e depois todo mundo reclama que eu não prestei atenção, me sobe o sangue pra cabeça.
- Sair andando pelo cômodo enquanto fala comigo
Não tem coisa que me tira mais do sério do que a pessoa estar conversando comigo e sair andando pelo cômodo em que estamos, ou sair andando pela casa mesmo, pior ainda se estivermos na cozinha e além de sair andando aindar vai lavar louça pra fazer mais barulho e me atrapalhar mais.
- O pior de tudo
Não importa o que aconteça, quem sabe que você usa IC ou AASI e escuta relativamente bem com eles, ou até muito bem, SEMPRE fará questão de retornar a um tópico anterior citado pela Paula e dizer “você tá sem aparelho?” ao que respondo “não ele tá aqui” e dizem “então não tá ouvindo por que? Não tá funcionando direito?”….eu geralmente fico quieta e balanço a cabeça só….mas SIM tá funcionando, mas eu fiquei SETE ANOS sem ouvir, não é rápido assim que vou entender TODAS as palavras que sairem falando pra mim, especialmente porque o pessoal aqui em casa fala rápido demais, embolado demais e dependendo da pessoa, adora falar errado propositalmente, e acham que tenho obrigação de entender. Tem hora que parece que o cidadão está de BRINCADEIRA com a minha cara.
Essas são as coisas que me deixam extremamente frustrada. Agora, faço a mesma pergunta que a Paula, o que mais magoa/irrita vocês?